
da áustria ao baixo augusta
pra mim, mandar música pras pessoas é como mandar textos. raramente eu escrevo um texto feito pra ou sobre alguém em específico, e mesmo quando eu tenho um mínimo de foco e falo sobre um grupo só de pessoas, dá pra ver a diferença de como o texto fica em comparação a quando eu generalizo ou começo a delirar.
mas veja bem, apesar de ser o instinto inicial, não dá pra ficar sem escrever só porque você não conheceu ninguém que valesse a pena poetizar sobre. e como eu tenho um ego do tamanho do mundo, faço questão de compartilhar minhas digressões sem fim sobre porra nenhuma porque acho que elas também são muito legais.
bom, egotrip à parte, com mixtape é a mesma coisa. eu sempre me declarei pras pessoas através de músicas, mesmo que elas não entendessem ou sequer percebessem (VRAH! FOREVER ALONE!). eu sempre tive essa convicção que eu podia dizer muito mais através das palavras dos outros, e música é uma fixação minha que só freud explcia então acho tudo muito mais expressivo e relevante quando tem ritmo. cada playlist minha pra alguém contava uma história, era o reflexo mais transparente de mim que eu entregava pras pessoas. mesmo as que eu fiz pros meus amigos – pra não ficar nessa pieguice de “oh-como-sou-romântica” – eram um retrato daquilo que eu sentia por eles e de tudo que a gente tinha vivido, como eu via a gente e o resto do mundo. dedicar uma música, na minha visão das coisas, é o passo mais importante que a gente toma no processo de desenvolver intimidade.
foi por isso que um tempo atrás eu comecei a fazer o fuck art, let’s dance. eu tava sem me apaixonar por mais tempo do que eu achava suportável, e por algum motivo que envolveu bebida então do qual não muito me recordo, resolvi ressuscitar minha idéia de ~podcasts~ num blog que tinha tudo pra ser genial depois de uma garrafa de pisco.
até hoje, quando eu ouço cada fuck art eu lembro exatamente do que tava vivendo naquele dia. eu fui reorganizar as playlists no começo do ano e reli os posts e foi um dos meus flashbacks mais divertidos de todos os tempos. mas eu já não tinha pique pra me comprometer a uma playlist por semana, e tinha começado com uma coisa tão hipster que serei que sofrerei bullying: mandar cds pras pessoas. cds com cara de fita k7. mixtapes.
acontece que eu desencanei de me apaixonar por um tempo, e quando vi não tava produzindo nada. eu não escrevia, eu não ia atrás de música, enfim, tinha largado mão das coisas que eu mais curtia. escrever foi um negócio que eu relutei mais, mas música eu comecei imediatamente a fuçar e recuperar o tempo perdido.
(olha, relendo isso chega a ser patético o quanto que eu sou loser, porque olha o senso de prioridade da pessoa né: música acima de qualquer coisa, relacionamento humano que é bom deixa pra depois.)
e assim, desculpa gente tem alguma coisa na minha genética que eu tento evitar manifestações com doses cavalares de farofa, mas que volta e meia estoura: eu sou mto indie. eu escuto isso dos meus amigos, das pessoas com quem eu fico, da minha família SABE? eu tenho uma fita k7 e uma obra do banksy tatuadas, mas é tudo sem querer juro não me julguem. e eu to há muito tempo sem conhecer ninguém interessante, então não tem jeito fico com síndrome de abstinência preciso fazer demonstrações públicas de afeto.
comecei a mandar os cds não pra ganhar dinheiro. foi pra extravasar essa minha esquizofrenia emocional mesmo. mas depois de um tempo, depois que o surto psicótico passou, eu vi que isso podia virar uma coisa legal de verdade. quem sabe as pessoas começassem a fazer playlists próprias, mandar mixtapes umas pras outras? se isso acontecesse, na minha concepção de vida todo mundo ia se divertir. cada um por um motivo: às vezes pra aparecer, outras pra dar em cima de alguém, talvez por se achar o fodão que sabe mais que todo mundo, ou, num mundo ideal, simplesmente porque descobriu alguma coisa legal e que vale a pena compartilhar porque talvez as pessoas que vão gostar daquilo não encontrariam por conta própria ou já procuraram e não conseguiram achar (afinal de contas compulsivo doentio por música eu sei que não sou a única, tem uma galera loca da bala nas coleção de discografia, b-side e bootleg e pessoas assim não sossegam enquanto não tem uma pastinha de mp3 bem bonitinha e organizadinha e com uma porrada de coisa que nunca vão ouvir na vida).
sei lá, eu achei de verdade que as pessoas poderiam curtir fazer isso. mas como o fuck art, let’s dance tinha uma proposta (muitas vezes por mim distorcida confesso, mas isso é culpa da minha instabilidade emocional) que excluia muita música legal. eu invento essas regras na minha cabeça e acho que é um conceito quase dogmático, mas como tinha passado muito tempo com tudo inativo, não ia ficar esquisito se mudasse. outra fase, I guess.
então eu mandei pra bem poucas pessoas a princípio, depois um pouco mais, e a última agora saiu uma porrada (“uma porrada” pro padrão de um cd feito em casa, e que dá um trabalho fdp pra montar cada caixinha então 40 parece bastante coisa quando você termina de fazer). e uma menina veio me falar que ia me mandar outra de volta. outra pessoa, uma amiga minha, me mandou cartão postal, outra me deu o livro dela por causa disso e de uns cds que eu organizei pra ela. música tava gerando troca de coisas de um jeito muito mais pessoal que um link no mural do facebook, espontaneamente. mas essa menina que falou do cd fez meu dia porque era justamente isso, sabe.
agora eu to tentando me organizar melhor pra administrar quando e como mando as mixtapes, e conversando com a galera surgiram idéias tipo um aplicativo que eu já fiquei pirando porque to querendo que ele permita você baixar as playlists e remixar, e compatilhar de algum jeito (ainda não desenvolvi a ideia direito). alguma coisa como o birp.
to aqui contando tudo em detalhes porque assim, caguei se alguém copiar. desde que alguém tome a iniciativa tá tudo certo. é que eu to fazendo do meu jeito, na metodologia da neurose e toc. e também porque sempre bom saber se as pessoas acham legal, ou se preferem de outro jeito. a gente pode construir o negócio juntos. foda-se a sopa, a pipa, a putaquepariu do ecad. como nada disso tem fins lucrativos, acho que é cara de pau falar que se trata de um roubo de direitos. muito pelo contrário, é divulgação gratuita. sai grana do nosso bolso pra manter isso e correspondência é um bagulho particular então não me venham com leis (UIIIIII ANARQUISTA).
não, assim, serio. a única intenção disso tudo é fazer uma brincadeira e conhecer gente, deixar registrado um momento qualquer. eu to tentando fazer isso de uma forma estruturada, que fique fácil pra todo mundo que se interessar, mas to aberta a sugestões.
bom, já virou uma bíblia isso aqui então vou sair fora pra montar caixinha de cd.
qualquer coisa estamos aí.