the saltwater room

“aquele que deseja continuamente ‘elevar-se’ deve esperar um dia pela vertigem [...] a vertigem não é o medo de cair, é outra coisa. é a voz do vazio embaixo de nós, que nos atrai e nos envolve, é o desejo da queda do qual logo nos defendemos aterrorizados”
(milan kundera)

quando tudo se encaixa como se a vida fosse um grande quebra-cabeça, as peças deixam de ter sentido. tudo que a gente ama, da forma como a gente conhece pelo menos, atinge seu limite quando faz sentido demais. a realidade do presente flutua na beira do abismo do pra sempre. o esquecimento é o dom da eternidade e a maldição dos detalhes.
mas tudo que é perfeito se consome. e dura pouco, já que a perfeição só pode ser bonita depois que acaba. enquanto ela dura, é exagerada demais para ser apreciada.
por isso a busca pela perfeição necessita de um rompimento, porque a parte mais bonita é o instante que se segue à destruição do perfeito, quando ele já está fora do alcance da rotina o suficiente para não ser estragado pela realidade mas ainda é recente demais para ser deixado para trás ou moído pelo tempo.
mas se você se prende ao fascínio dos momentos, ele se torna um estilo. é a aliteração dos relacionamentos, sem se preocupar com a rima dos finais felizes. só que um estilo também é uma forma de vício, um parasita que se infiltra na forma de hábito. a gente mete na cabeça que esgotou todas as perfeições possíveis e sobraram só as marcas que elas deixaram, as cicatrizes.
e uma cicatriz nada mais é que um ranço de lembrança de uma dor que já passou. quando a dor passa, o medo do acidente acontecer de novo também. estamos de novo prontos pra próxima. e sempre tem uma próxima. porque é sempre sem querer que a gente se machuca. é sempre um acidente de percurso, um erro de calculo, um ato falho. e justamente por saber disso a gente continua tentando – e errando – porque ninguém tem culpa, ou mesmo que tenha, que diferença faz pro que já foi?
desistir seria burrice, ou no mínimo imaturidade, porque o que hoje é cicatriz, perfeição gasta, amanhã vira perfeição nova através de outros olhos, e pode virar todo dia de novo. os momentos mais felizes que eu vivi foram também os mais insignificantes. os acontecimentos épicos não têm nem de longe o mesmo impacto que as banalidades na minha memória, então a importância das coisas não pode estar atrelada ao seu significado no panorama geral.
parece bobagem, eu sei. mas é uma coisa que faz falta. a gente pode tentar se convencer do contrário, mas depois de um tempo percebe que por mais fútil que seja, é aprendendo a olhar direito pros detalhes onde a perfeição se esconde que a gente consegue manter o foco no resto das coisas que faz.

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3 Responses to the saltwater room

  1. Eu sabia, não devia estar aqui! :/
    Já deturpei tudo, joguei pro meu contexto e quase chorei…
    TPM, companheira, é fogo! :D

  2. Porra, Tate, não tinha visto o video!?!?!?!
    No comments …

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