Eu não tive computador em casa até novembro do ano passado. Eu na verdade nem gostava muito de computadores até os 18 anos. Pra dar uma noção da minha preguiça tecnológica, até o terceiro colegial eu tinha um toca-fitas. É, isso mesmo. Fitas K7. Todo mundo com um mp3 e eu gravando fitas. Hahahahaha.
Quando eu tinha por volta de 15, 16 anos todo mundo que eu conhecia tinha fotolog e MSN. Eu até tentei fazer um fotolog, que se não me engano existe até hoje. Postei logo assim 3 vezes nele. O problema, alem obviamente de eu não possuir computador, era que eu passava o dia fazendo merda na rua. E eu achava ridículo ficar brincando na internet quando haviam tantas possibilidades no mundo real. MSN então nem se fala. Eu não sabia nem mexer. O meu e-mail do MSN foi criado pela minha melhor amiga logo quando a gente se conheceu, porque ela achava um absurdo alguém ser tão desconectada quanto eu era (e de fato, eu era desconectada. De tudo. Da realidade principalmente).
Ainda assim, eu tive uma pré-adolescência normal nos anos 90. Meu tio comprou um computador pra casa da minha avó quando ele ainda morava lá, e deixou pra ela quando se mudou. E eu tentei desenvolver um relacionamento com ele. Era aquela época de conexão discada. Discador IG, que era de graça, obviamente. O problema é que eu só conseguia mexer nele por volta das 18h, quando eu voltava do clube. Aí esquece, todas as linhas tavam sempre congestionadas e quando FINALMENTE você entrava a conexão durava no mááááximo 10 minutos. E ai se alguém ligasse nesse meio tempo. Era a morte.
Mas eu sou teimosa. Desconectava, eu tentava de novo. Eu TINHA QUE saber como funcionava.
Minha tia criou um ICQ pra mim, porque ela achava bonitinho. Criança na internet não tava na moda naquela época, era simpático e não freak-show que nem hoje em dia. ICQ era coisa de tarado, de verdade. Eu tinha logo assim 10 anos de idade e aparecia um monte de indiano querendo conversar private. Mais ou menos que nem o Orkut é agora. Haha. Eu só usava o ICQ pra falar com meu tio e minha tia. Mas eles só entravam à noite, e à noite eu ia pra casa. Então eu ligava aquilo só pra rejeitar convite de meia dúzia de pedófilos do leste europeu.
Eu só continuava ligando o computador por um motivo: Andrea Casiraghi. Esse mesmo, o principezinho de Mônaco, que eu achava o homem mais lindo e perfeito do mundo. Ele não aparecia na Capricho, que era minha fonte maior de informações da época, eu não lembro nem como eu descobri a existência dele, mas tinham páginas e mais páginas de internet com fotos dele. Páginas do Geocities.
Geocities era o meu maior vicio e minha maior alegria. Apesar do layout NOJENTO e ilegível de 99,5% das páginas, era através de páginas do Geocities que eu tinha acesso à fotos, biografia e curiosidades sobre cada um dos meus futuros-maridos da época – Andrea Casiraghi, Kevin Richardson, Taylor Hanson…
Mas não era nem isso o mais legal. O mais legal é que na internet eu podia ser nerd o quanto eu quisesse e ninguém ia me julgar. Claro, porque construir altares de idolatria para boybands era socialmente aceitável, mas deus me livre ficar lendo sobre técnicas de desenho e animação, cultura grunge, ou qualquer coisa não-imbecilizante. E eu gostava dessas coisas. Eu abria o Netscape (saudoso Netscape), dava uma olhada no que tinha de novo sobre o meu homem dos sonhos da semana (o que não era muito, atualizar era luxo) e passava para aquilo que REALMENTE me interessava: desenhos animados. E nenhuma Lívia, Mariana ou Raquel (lembro até hoje o nome de cada uma das vadias que arruinaram o início da minha puberdade. Mas não guardo um pingo de rancor daquelas filhasduma puta) ia fazer gracinha a respeito.
Esse processo todo durava, no máximo, meia-hora. Internet era caro e ocupava a linha, então a gente tinha tempo restrito.
Depois de um tempo minha irmã e minha mãe, com toda sutileza OGRA e habilidade tecnológica, quebraram o monitor. E o que já não era lá essas maravilhas simplesmente parou de funcionar. Eu só fui aprender a usufruir de um computador quando comecei a trabalhar, aos 16 anos. Um iMac. Daqueles coloridos. Verde. Fez com que eu nunca mais fosse capaz de tolerar um PC na minha vida. Mas isso não vem ao caso.
O que importa é que ontem, dia 26 de Outubro de 2009, o Geocities foi extinto. Isso despertou sentimentos nostálgicos na minha alma nerd.
Tudo bem, darwinismo. O neandertal da programação HTML em algum momento teria que sucumbir. Mas dói um pouco, dá um aperto no peito. Porque antes de tudo, antes de eu saber o que era vodka, o que era tequila, o que era putaria generalizada, antes de eu saber o que era a Augusta…. Antes de eu ser apelidade de Crisitane F., antes mesmo de eu SABER quem era Cristiane F… Antes de tudo, havia o Geocities.
Minha inocência perdida, parte MXVII
R.I.P. Geocities.
