(atendendo à sugestão do Sica, esse post é NSFLunch)
Olha, o que eu vou escrever aqui trata de um estabelecimento específico. Não vou citar o nome, e não é nem por uma questão de responsabilidade jurídica, mas porque algo me diz que essa descrição se aplica a muitos outros estabelecimentos que seguem a mesma proposta, e assim fica mais fácil gerar identificação.
Você sabe como é o tipo de lugar que eu tô falando. Se você já trabalhou, você sabe. Porque é uma entidade que transpõe as barreiras sociais. Não importa se o seu escritório fica num cu de mundo ou no melhor bairro da cidade, sempre tem por perto um daqueles bar-restaurante-lachonete com almoço executivo a 10 reais.

Aliás, vamos refletir um pouco sobre essa denominação: “almoço executivo”. Olha, é pra fuder com qualquer fantasia de infância que você porventura tinha. Porque quando você é criança e vê um executivo, bem vestido, engomadinho, você automaticamente pressupõe que ele almoça no Fasano todo dia. Aí você cresce e descobre que o “executivo” se constitui de arroz, feijão, bife, batata frita e ovo – sendo que o bife, a batata E o ovo muito provavelmente foram fritos na mesma chapa, ao mesmo tempo.
Ok, voltando.
A questão é que inevitavelmente, em algum ponto da sua jornada profissional, por mais que você trabalhe perto de um shopping e tenha um ticket de valor razoável, você terá que recorrer ao sujinho da esquina. Até porque, o fato do “molho especial” que acompanha a porção de fritas conter ingredientes que você prefere nunca chegar a saber quais são não implica na a comida não ser honesta. Talvez até seja REALMENTE boa, e vamos combinar que tem dias que não tem nada melhor que bater um pratão saudável de pedreiro.
Ao longo de alguns anos de vivência, eu compilei algumas pequenas dicas de sobrevivência para uma plena apreciação do seu PF. Claro que existem variáveis, mas três regrinhas básicas são praticamente infalíveis.
A primeira é óbvia: nunca, jamais, sob nenhuma circunstância, visite a cozinha. Aquelas placas que convidam você a fazê-lo não passam de ciladas da ANVISA pra tirar seu apetite. Tem certas coisas que a gente não precisa saber como foram feitas. Você mesmo, por exemplo: você tem consciência que seus pais fizeram sexo pra te conceber. E por mais que a sua origem traga curiosidade, você não gostaria de vê-los trepando. Então porque arriscar descobrir outros processos ainda menos salubres?
Segunda coisa importante: muitos desses lugares oferecem salada como acompanhamento. A maioria, eu acho. Dispense. Porque assim né, uma coisa é você não saber o que passou pela chapa antes do seu prato, mas o simples ato de passar pela chapa dá uma segurança maior. Afinal, os microorganismos alienígenas muito provavelmente foram exterminados pelo calor e contato com outras substâncias que anulem seus poderes de Kryptonita. Agora, salada não. Salada tá lá, veio da natureza pro caminhão do Ceagesp, do Ceagesp pra feira, e da feira pra cozinha do buteco. Lembra da primeira regrinha? Então…
Pra completar a Santíssima Trindade do Pé Sujo, talvez a coisa mais importante seja a filosofia de vida que você precisa adotar, espécie de mandamento primordial para felicidade: NÃO QUESTIONE, COMA. É uma questão de fé cega. Ou seja, não olhe muito para comida, pros talheres, ou pro prato. Estatisticamente, a probabilidade de você encontrar alguma coisa é infinitamente maior quando você procura. E como sua avózinha querida sempre disse, “o que os olhos não vêem, o coração não sente” – ou o estômago no caso. Porque se você for prestar a devida atenção, você VAI encontrar fios de cabelo fazendo um flash mob no seu arroz. Então, pra simplificar, apenas faça o seguinte: antes de te servirem, pegue um guardanapo (ou melhor, uns cinco, porque geralmente são daquele tipo vagabundo que mais espalha o sebo do que aborve qualquer coisa) e esfregue toda e qualquer marca de intervenção alienígena dos seus talheres, porque são eles que entrarão em contato direto com a sua boca. Com o prato nem precisa encanar, porque reminiscência de inhaca nenhuma vai ser muito pior do que você vai colocar ali mesmo.
Agora, eu ia deixar uma coisa de fora aqui, mas hoje eu tive uma experiência daquelas de quase-morte sabe? Quando você vê toda sua vida passando como um filme em frente aos seus olhos? Então, tive uma dessas. Praticamente me caguei de medo quando uma pomba-planadora-soviética alçou vôo bem nas minhas costas. Eu nunca tive medo de pombas, mas hoje comecei a ter. De uma em especial, que resolveu que ia fazer companhia pra mim e pro meu amigo. E não adiantava enxotar, porque ela era insistente e voltava. Mas não era em missão de paz a abordagem. Você podia ver a maldade estampada naqueles olhos que não pertencem a Deus. Dava pra ver claramente que ela tava ali com o propósito de espalhar o terror, cavaleiro do apocalipse style.
E isso nem mereceria menção, mas eu SEI que ela não está sozinha. Existe uma legião de pombas enviadas pelo tinhoso assombrando os proletários honestos. E depois de quase morrer do coração, cuspir na mesa devido ao susto e demorar o dobro do tempo que eu normalmente demoro pra comer graças às engenhosas manobras de desvio que se fizeram necessárias, eu devo dizer que a melhor estratégia é ignorá-las. Agir como e elas não estivessem lá, mesmo que você sinta aquelas penas infectas roçando no seu pé. Porque aí elas passam pelo chão, pegam os dejetos e saem fora. É que nem assalto, ou sequestro-relâmpago, dadas as devidas proporções: se você expressar qualquer reação, haverão represálias. E acredite em mim, você não quer as asas negras da morte pairando você enquanto você tenta mastigar um bife que, ao que tudo indica, nunca fez parte de uma vaca.
Mas não se deixe apavorar. Apesar da consistência dos materiais ser altamente subjetiva, das visitas amarradas três vezes em nome de Jesus, e acima de qualquer questionamento sócio-higiênico, o pé-sujo ainda é uma das alternativas mais felizes e economicamente viáveis pra sua refeição. Eu particularmente não vou deixar de frequentar o que tem aqui do lado.